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quinta-feira, agosto 27, 2009

INGLORIOUS BASTERDS(ALTAMENTE RECOMENDÁVEL)


http://www.apple.com/trailers/weinstein/inglouriousbasterds/


O registo é clássico e musculado, a saga também. Divide-se em capítulos, tem ambição literária. Assim mesmo, "Inglourious" com "u" e "Basterds" com "e", à americana, com erros gramaticais no título original.

"Sacanas sem Lei" é falado em francês, inglês, alemão e, lá para o fim, em italiano. Mistura actores de várias nacionalidades. Não há aqui espaço para a experimentação de "À Prova de Morte", penúltimo filme de Tarantino - o tom agora é diferente, mais sério, foi-se a histeria do génio.

"Sacanas sem Lei" foi feito por um cineasta todo-o-terreno que não tem medo dos géneros: e, embora sejam de western-spaghetti os ambientes iniciais, tudo se torna sóbrio a partir daí. Depois, abre-se as portas a um filme de vingança em que o cinema é uma arma de arremesso, e é com o cinema que Quentin Tarantino vai à guerra, ou seja: "Sacanas sem Lei" - é isto que queremos sublinhar - é um filme sobre o cinema.

Talvez nem seja o mais belo de Quentin; não é, de todo, o mais siderante que realizou; mas parece-nos, desde a estreia de Cannes, que é o seu filme mais importante.

A inspiração veio de um série B italiano dos anos 70, "Quel Maledetto Treno Blindato", de Enzo Castelari - mas "Sacanas sem Lei" não é um remake.

Tarantino inventou um grupo de mercenários judeus. Durante a II Guerra Mundial, eles vêm dos EUA para a Europa com uma missão: chacinar nazis na França ocupada. O grupo é liderado pelo americano Aldo Raine (Brad Pitt), um 'apache' já com uma série de escalpes nazis no currículo. Ou seja: Quentin Tarantino não vinga só os judeus, consegue também arranjar maneira de vingar os índios.

A Aldo Raine junta-se uma banda de poliglotas e até uma estrela do cinema alemão, Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), que passou para o outro campo e colabora agora com a Resistência. Há ainda Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), uma judia francesa que sobreviveu por um triz aos nazis e, três anos depois, dirige uma sala de cinema em Paris sob nome falso.

Acontece que essa sala, fruto de um acaso, receberá a estreia de um famoso filme de propaganda alemã. A fina-flor nazi vai lá estar, Führer incluído. Shosanna pensa num plano. Um plano cinematográfico que horrorizaria qualquer presidente de Cinemateca. Ela tem em seu poder as bobinas de 350 cópias de filmes em nitrato. E o nitrato, como às tantas se ouve, "arde três vezes mais depressa que o papel".

Mas é mais produtivo ficar num plano teórico do que falar do filme em si, da sua história e da ousadia da sua revelação. De resto, deixamos num outro texto (Os sacanas da Tarantino) uma descrição das personagens e, por elas, a sinopse está feita.

Digamos para já que "Sacanas sem Lei" é um filme que, pela fé de Tarantino no poder do cinema, admite uma versão alternativa da história do século XX. Uma versão para salvar o mundo. Mas há muito de inesperado, sobretudo para quem associa Quentin Tarantino às cenas de acção de "Kill Bill" e "À Prova da Morte", ou seja, a uma assinatura inspirada em violência.

É que se Tarantino é um grande cineasta ainda é melhor argumentista, e desta vez transbordou de talento. E é com palavras - mais uma vez - que a guerra de Quentin é feita, não com rajadas de metralhadora, que, eventualmente, fecham longas sequências de diálogos de 20 minutos.

Em "Sacanas sem Lei", de Quentin Tarantino, o cinema está em todo o lado
Em "Sacanas sem Lei", de Quentin Tarantino, o cinema está em todo o lado

E eles falam, falam, falam... Pelas palavras se salvam, pelas palavras se traem. O prazer da melodia, os sotaques das diferentes línguas, o modo de ser em simultâneo tão inteligente e tão simples e voltar a acreditar na força de um argumento de cinema abençoado: "Sacanas sem Lei", no limite, só fala disto. De uma missão linguística.

Se nos seus filmes anteriores o jogo de Quentin Tarantino era a passagem do verbo à acção, "Sacanas sem Lei" rompe com este jogo dialéctico. Porque já não há passagem, precisamente. O verbo é a acção, tout court. E o essencial está nas diferenças entre uma língua e outra, no prazer das entoações, na proposta, neste sentido, musical que "Sacanas sem Lei" também nos oferece.

Pensamos na história do cinema americano, em todos os filmes de época e de guerra que foram feitos e num cliché que a América se encarregou de construir para o mundo desde que o genial Charlie Chaplin parodiou Hitler em "O Grande Ditador": a figura do nazi.

É uma figura de escárnio. Grosso modo, o nazi é um pobre-diabo que mal abre a boca, interpretado por actores de segunda mais pobres ainda. E se "Sacanas sem Lei" viesse inverter este cliché, este heroísmo made in USA, criando um coronel nazi, Hans Landa (Christoph Waltz), que, por ser poliglota, se torna o pivô de quase todas as sequências? A criação desta personagem sem igual em mais de cem anos de cinema é um gesto de invenção extraordinário.

Mas há mais além do 'tratado linguístico' - há também o cinema. Em "Sacanas sem Lei", ele está em todo o lado: no jogo de cartas que recorda King Kong ou Pola Negri, na personagem de Michael Fassbender, ex-crítico de cinema, na sala de cinema de Shosanna e até no filme de propaganda ("O Orgulho da Nação") que há dentro do filme e nos revela o heroísmo hitleriano da personagem de Daniel Brühl.

Estamos perante uma máquina de matar bandidos, inspirada pela musicalidade infinita do verbo e a variedade dos seus idiomas. Um grande jogo de prazer e de vingança, inflamável como o nitrato, que se arrisca a demonstrar isto - o cinema não é uma arma metafórica, é uma arma literal. E arde como um Marlboro!



Actualização de texto publicado na edição do Expresso de 22 de Agosto de 2009

1 comentário:

Johannah disse...

My God!
Tu estava inspirado qd escreveu esse texto!!!!
Algo que me chamou a atenção no filme foi mostrar os supostos "mocinhos" tão mlavados qto os vilões.
O discurso fascista de Aldo, o apache, que o diga.

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